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  • Sueli Rutkowski

Sueli Rutkowski pode ser considerada, sem dúvida, uma mulher à frente do seu tempo. A menina de 17 anos que inicia sua trajetória profissional na década de 60 na área de contabilidade, transforma-se na atual empresária de sucesso em um mercado bastante injustiçado: o doméstico. Do escritório Contábil na Rua Sete de Abril, no Centro de SP, até a sede do seu negócio atual, a Show de Cozinha, no bairro paulistano do Tatuapé, o percurso de Sueli é marcado por mudanças, surpresas, persistência e muito trabalho. Além da Show de Cozinha, Sueli é também autora do livro "Dicas Incríveis", ministra palestras e comanda o quadro com o mesmo nome no Programa da Eliana, aos domingos no SBT. Agora, você lê aqui uma conversa exclusiva com esta Mulher de Sucesso, a nossa entrevista do mês!

Sua trajetória profissional foi sempre orientada pelas questões domésticas? Conte-nos um pouco como foi.

Não, eu sempre fui uma pessoa que gostava das coisas diferentes e tive o incentivo do meu pai aos estudos e carreira profissional. Entrei na PUC em Administração de Empresa aos 17 anos e com 18 anos já abri um escritório de contabilidade em São Paulo. Sempre trabalhando e estudando, sempre com coisas um pouco diferentes para a minha época, para a minha idade e também por eu ser mulher.

Quando eu fiz o curso técnico de Contabilidade, tinha uma turma feminina para quatro turmas de Secretariado. Não era muito comum uma mulher nessa área. Na PUC foi a mesma coisa, eram só cinco mulheres no curso de Administração. No terceiro ano de faculdade surgiu uma oportunidade de vender o escritório e eu fui fazer um estágio na Caixa Econômica. Essa trajetória não era normal para a mulher, mas para mim nada foi desanimador porque eu obtinha sucesso no que eu me propunha a fazer desde muito nova.

Me formei com 22 anos, terminei o estágio e já estava trabalhando com minha mãe e meus irmãos e começamos uma mini-empresa de confecção. Foi uma firma muito bem sucedida. Eu ficava na área financeira. Ela chegou a atingir grande-porte. Nesse ínterim, eu casei e tive minha filha em 1965 e consegui continuar minha fase profissional. Em 67, quando meu filho nasceu, comecei a sentir dificuldade em administrar a vida doméstica, a vida profissional e a vida de mãe. Junto ao meu marido decidimos que eu pararia porque entrou uma questão de prioridade. Achei que era sensato e foi quando comecei a me dedicar às questões domésticas.

Nesse momento, então, você substituiu a carreira profissional para se dedicar exclusivamente ao trabalho doméstico e tornar-se dona-de-casa? Como foi essa transição?

Foi só quando eu sai do trabalho para me dedicar a minha casa que comecei a avaliar o que era o serviço de dona-de-casa, cuidar em tempo integral das crianças e a mão de obra que dava para administrar aquilo tudo! Antes disso, eu administrava uma empresa com mais de 40 empregados e, naquele momento, eu não conseguia administrar minha casa com três funcionários. Foi quando eu percebi que eu não sabia nada sobre as questões domésticas. Como você vai administrar algo que não conhece? Nessa mesma época eu fui para os Estados Unidos pela primeira vez e fiquei hospedada na casa de uma família americana por dois dias. Naquela visita, me chamou a atenção como aquela família administrava seu cotidiano. Percebi também quais eram os aspectos que estavam 'atravessando' meus afazeres. Um deles era ficar ao telefone. Como ficava mais tempo em casa, a família ligava muito e não tinha telefone sem fio naquela época. Ou seja, você precisava parar o que estivesse fazendo para conversar ao telefone. Aí, eu lembrava daquela mãe de família americana que eu visitei com o telefone no ombro enquanto cuidava da casa e andava para todo o lado estendendo um metro e meio de fio!

Eu comecei a fazer algumas adaptações lembrando dessas coisas que eu vi lá e me chamaram a atenção. Foi nessa época que eu comecei a me encantar com planejamento familiar e alimentar e com pequenos cuidados que faziam a diferença na administração da casa, como ter a mamadeira do meu filho pronta e esterilizada guardada no freezer - que já é uma das dicas do livro. Na faculdade, eu tinha estudado muito sobre métodos de linha de montagem, de produção e - nesse tempo - eu cheguei à conclusão de que uma casa é como uma empresa. Você tem que administrar uma casa pensando quanto você quer e pode gastar com ela, o que você está disposta a investir que facilita o trabalho, o que você tem para contratar e treinar seus funcionários. Comecei a gostar do que é o trabalho em casa. E quando você faz algo que você encontra um resultado positivo, isto te estimula a ir adiante.

Qual foi o passo para transformar essa bagagem em casa em um trabalho profissional?

Nessa época, estava entrando no Brasil a história de congelamento. Eu comecei a pesquisar sobre o assunto e no aniversário de dois anos do meu filho eu fiz uma festa para ele com todos os produtos congelados. Eu recebi muitos elogios, então continuei as pesquisas para que eu pudesse me tornar uma 'expert' no assunto de congelamento de alimentos, lendo muitas publicações sobre o assunto, inclusive. Seis meses depois da festa, eu formatei e anunciei no jornal um curso sobre congelamento de alimentos. Esse anúncio me deu o retorno de uma ligação, um médico, que me contratou para dar um curso em Joinville. Por esse curso, se formaram 90 pessoas.

Entre elas, estava uma senhora que me apresentou ao marido, que se interessou pelo conhecimento sobre os congelados. Ele era o diretor da Cônsul e, nesse ano, a empresa estava em vias de lançar o freezer doméstico. Eu fui contratada para auxiliar os engenheiros nos testes de funcionamento do freezer. Fiquei por cinco anos na Cônsul e abri meu próprio negócio, inicialmente como autônoma, para depois abrir minha empresa,  que transformou-se na que tenho hoje, a Show de Cozinha. Desde a abertura, a empresa oferecia vários cursos para as questões alimentares e de administração do lar.

Essa trajetória fez com que o trabalho ganhasse status de referência no mercado e foi o período em que começou a chegar uma série de empresas de eletrodomésticos no país. Já na minha empresa, me tornei representante para avaliar o desempenho dos equipamentos durante as formações. Um exemplo é a Panasonic, com a qual eu fiz parceria para utilizar e avaliar o microondas, que estava sendo lançado no país. Também havia produtos para testes de empresas alimentícias, como a Nestlé e a União.

Houve uma série de mudanças sociais em relação ao papel da mulher desse período dos anos 80, quando você abriu sua empresa, até os dias de hoje. Como você identifica seu público nesse percurso?

Inicialmente, meu público era formado pelas mulheres que queriam aprender a fazer coisas diferentes em casa, pois com o aparecimento de novas tecnologias domésticas, havia mais possibilidades de inovar nas receitas. Essa procura durou cerca de dez anos. No começo dos anos 2000, a gente percebe que a abertura tecnológica e o acesso às informações, além da estabilidade das mulheres no mercado profissional mudam novamente o cenário. A partir de 2005 temos também outra mudança, as diaristas deixam de trabalhar só em casas de família e começam a trabalhar em restaurantes, lanchonetes e empresas. Não há mais tanto tempo para fazer curso e também há dificuldade de encontrar profissionais capacitadas para trabalhar em casa, porque elas tem novas opções no mercado. Foi quando começamos a oferecer formação também para as funcionárias do lar. Além disso, há um público maior também das pessoas que moram sozinhas, inclusive homens. As mudanças sociais foram muitas e muito rápidas. E acompanhá-las foi importante para fazer o direcionamento mais adequado dos cursos, que também mudam conforme a realidade e as necessidades do público.

Como é a sua empresa hoje? Como foi que surgiu a ideia do livro?

Além dos cursos, a Show de Cozinha também virou uma boutique com coisas muito legais para a casa. Temos utensílios práticos que são mostrados nos cursos para facilitar as atividades domésticas, além de coisas muito bonitas para a casa. Tem um espaço que é essa loja, tem um andar de curso, com programação que acompanha a realidade atual, como a aula de single food, com cardápios e preparo de comidas individuais. Oferecemos também assessoria doméstica voltada aos profissionais do lar. Temos também as palestras, como por exemplo sobre Harmonia Doméstica. Além da Show de Cozinha, há ainda o quadro no Programa da Eliana. Foi a partir desse trabalho na TV que surgiu a idéia do livro, pois o quadro é justamente sobre dicas para casa.

Você tem alguém que particularmente a inspirou em sua trajetória profissional?

Minha principal inspiração foi a Martha Stewart. Posso considerar que ela foi quem me chamou a atenção desde jovem para a importância de conciliar as atividades de trabalho, ser mãe e dona de casa, que as mulheres já acumulavam naquela época. Além da influência familiar da minha mãe que sempre foi muito ativa e muito esperta para os negócios.

Quais as qualidades que você destaca em uma Mulher de Sucesso?

Primeiro a persistência. Quando algo der errado, pense que não é porque um soldado morreu que a guerra acabou. Segundo, acreditar no que faz. Quando eu comecei, ninguém acreditava que aquele trabalho ia dar certo. Tem que acreditar acima de tudo e de todos e ao menos tentar. Só desista quando você tiver certeza que esgotou todas as fontes, mas tente. E se errar em alguma coisa, tenha disposição para escutar todos os que estão em volta, mas aceite só os conselhos que o teu bom senso te disser que vão ajudar. Palpites e opiniões negativas, delete. E leia muito. Informar-se contribui para que acompanhe as mudanças.

O que é o sucesso para você?

O sucesso para mim é quando você percebe que as pessoas admiram o que você faz. Tem alguém escutando o que você tem para falar. Porque o dinheiro, ele vem como remuneração pelo trabalho feito. Mas ter alguém que acredita no teu trabalho, isso é o sucesso. O fato de pagar por um trabalho feito é compromisso mercantil, não define que a pessoa gostou desse trabalho. O que determina é a credibilidade que você consegue com esse trabalho realizado. Aí sim você pode dizer que obteve o sucesso dele.

*Para conhecer mais de perto o trabalho de Sueli, você pode acessar o site da Show de Cozinha: http://www.showdecozinha.com.br, ou entrar em contato pelo telefone (11) 2673-2000.


Redação Mulheres de Sucesso


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