Dorina Nowill:
exemplo de determinação e vontade

Dorina de Gouvêa Nowill nasceu em São Paulo em 1919. Com 17 anos ficou cega por causa de uma patologia ocular. Mas isso não acabou com sua vida. Ao contrário: a cegueira a transformou em uma mulher que não desiste e batalha sempre em busca de seus objetivos. Dorina adorava estudar e a cegueira não a barrou. Na época, havia poucos livros em Braille para estudantes cegos. Assim começou sua missão de vida: reuniu um grupo de voluntários e criou a Fundação para o Livro do Cego no Brasil, que mais tarde viria a ser a Fundação Dorina Nowill.
Dorina Nowill não desistiu dos estudos e foi a primeira aluna a matricular-se em São Paulo, numa escola comum, onde estudou com alunos com visão normal e formou-se professora. Na seqüência, estudou nos Estados Unidos. Quando retornou ao Brasil, implantou a primeira imprensa Braille para produzir livros em Braille e não parou mais.
Internacionalmente, trabalhou com organizações mundiais de cegos em órgãos da ONU (Organização das Nações Unidas), na qual representa o Brasil. Recebeu vários prêmios (nacionais e internacionais) que rendem uma lista extensa.
Além de toda a atividade, ainda resta tempo para a mulher Dorina: ela é casada com Edward Hubert Alexander Nowill, mãe de cinco filhos e avó de 12 netos. Escreveu o livro “... e eu venci assim mesmo”, uma autobiografia que conta seus 50 anos de trabalho.

Por Fabiana Ganci
Redatora do Site

Site Mulheres de Sucesso: Quando foi criada a Fundação Dorina Nowill?
Dorina Nowill: A Fundação Dorina Nowill Para Cegos, antiga Fundação Para o Livro do Cego no Brasil, foi instituída em 11 de março de 1946 por mim por causa da dificuldade que passei para encontrar livros em Braille no Brasil.

Site Mulheres de Sucesso: Como foi o começo das atividades da Fundação?
Dorina Nowill: Inicialmente, a Fundação dedicou suas atividades para a produção manual de livros em Braille realizada por um grupo de voluntários. Com o sucesso das atividades, possibilitadas pelo apoio destes voluntários, dos Governos Municipal e Estadual e por doações de equipamentos, foi possível instalar a Imprensa Braille para produção industrializada de livros em Braille.
Site Mulheres de Sucesso: Conte um pouco da história da Fundação.
Dorina Nowill: Vou citar alguns momentos importantes. A Fundação Dorina Nowill para Cegos, antiga Fundação para o Livro do Cego no Brasil, foi oficialmente fundada em 11 de Março de 1946. Em 1950 foi instalada a Imprensa Braille, numa parceria com os Governos Municipal e Estadual e doações de equipamentos da American Foundation for Overseas Blind e Kelog Foundation for the Blind, dos Estados Unidos. Em 1955 foi criado o Departamento de Educação Especializada em convênio com a Secretaria de Estado da Educação, que funcionou na sede da Fundação até 1966. Esse Departamento iniciou e desenvolveu o ensino integrado de estudantes cegos em São Paulo, incluindo o estímulo à Legislação estadual para o ensino do cego. Em 1958 tivemos o primeiro Curso de Treinamento de Instrutores de Orientação e Mobilidade para Cegos por Joseph Albert Asenjo. Em 1962 a criação do 1º Centro de Reabilitação de Cegos. Em 1972 instalamos a Unidade de Livro Falado para Cegos. Em 1979 foi instalado o Departamento de Educação Especial e foi criado o 1º Programa de Estimulação Precoce para Cegos no Brasil. Em cinqüenta e seis anos de existência, a Fundação produziu mais de mil títulos (100 mil volumes) e atendeu mais de 10 mil pessoas nos diferentes serviços que realiza. Em 2004, a Fundação produziu: mais de 13 milhões de páginas em Braille, mais de 7 mil exemplares de livros e revistas faladas e realizou mais de 21 mil atendimentos. Esses livros são distribuídos gratuitamente para mais de 900 organizações em todo o país.

Site Mulheres de Sucesso: Qual o principal objetivo da Fundação?
Dorina Nowill: A Fundação Dorina Nowill para Cegos tem por objetivo a divulgação do livro em sistema Braille, mas também desenvolve outros serviços em benefício dos portadores de cegueira ou de baixa visão nas áreas de: educação, reabilitação, profissionalização, cultura, pesquisa e prevenção da cegueira, produção e distribuição de livros em Braille, produção e distribuição de materiais especiais e equipamentos para uso de deficientes visuais.

Site Mulheres de Sucesso: Como a Fundação se sustenta?
Dorina Nowill: A Fundação tem parcerias com os Governos Municipal, Estadual e Federal, com o Ministério da Cultura e da Educação, através de convênios para produção e distribuição de livros em Braille. São cerca de 900 entidades em todo o Brasil que recebem nosso material. Mas a maior parcela de contribuição que sustenta a Fundação vem da sociedade civil – empresas e pessoas físicas que colaboram sempre.

Site Mulheres de Sucesso: Como foi continuar a estudar depois da perda da visão? De onde vieram as forças?
Dorina Nowill: O aprendizado de uma pessoa que perde a visão não é nem fácil nem difícil. Depende da capacidade de aprendizado de cada pessoa. Pessoas que sempre estudaram, como era o meu caso, tem mais facilidade para aprender as coisas. Quando se é cego, trabalha-se e estuda-se com os pés e com as mãos.

Site Mulheres de Sucesso: Como foi descobrir o mundo sem a visão?
Dorina Nowill: Para quem nasce cego é um pouco mais fácil, pois a formação de conceitos e idéias é feita toda através das condições que essa pessoa tem. A pessoa que nasce cega associa sentimentos a situações e cores, tudo junto. Qual é o conceito da cor azul para uma pessoa cega de nascença? É baseado nos sentimentos e emoções que a palavra azul teve em determinadas situações. Já para mim era diferente. Eu já tinha os conceitos criados dentro da minha cabeça porque eu vi o mundo. Eu vi as locomotivas, tenho as formas prontas para formar as idéias na minha mente.

Site Mulheres de Sucesso: Algum recado para nossos (as) leitores (as)?
Dorina Nowill: O conceito que de “está tudo preto”, que indica uma situação sem saída não pode ser empregada para nós cegos. Nós não temos uma tela preta na nossa frente. O que temos é uma cortina meio acinzentada com luminosidades que acendem e apagam, como um caleidoscópio, mas não com tanta cor, que varia de pessoa para pessoa. Se nós cegos vemos isso, como não prosseguir na caminhada?


 
 Entrevista 
Nessa edição, Mulheres de Sucesso entrevista Dorina Nowill.

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