Entrevista com Roseli Tardelli

AIDS. Muita gente que ouve essa palavra pensa logo em algo triste. Para Roseli Tardelli também foi assim no primeiro momento. Mas ela reverteu esse quadro. Sofreu quando, em 1989, recebeu a notícia que seu único irmão, Sérgio Tardelli, estava infectado com o vírus hiv. Mas sofreu muito mais em 1993, quando seu convênio médico, a Golden Cross, se recusou a cobrir as despesas de seu irmão, que estava internado. A partir daí começou uma batalha jurídica contra o convênio médico Golden Cross, e também sua luta contra o preconceito e a desinformação. Há quatro meses Roseli fundou a Agência de Notícias da AIDS, agência esta que envia aos jornalistas materiais e indicações de fontes para matérias que falem do hiv. Para Roseli, só a informação correta sobre o hiv e suas formas de transmissão pode ajudar no combate ao vírus. E é a isso que ela tem se dedicado. Confira suas palavras.

Por Fabiana Ganci
Redatora do Site

Fotos: Vargas


Mulheres de Sucesso:Como a Aids entrou na sua vida?
Roseli Tardelli: Em 1989 eu havia ganhado uma bolsa de estudos e fui fazer mestrado na Espanha. Quando voltei, lá por outubro, recebi a triste notícia que meu irmão havia se infectado. Sem sombra de dúvidas, foi a pior notícia que eu recebi na vida. Naquela época não havia a combinação dos anti-retrovirais. Foi tudo muito triste, muito intenso, muito difícil.

MS: Como foi a questão jurídica com a Golden Cross?
Roseli: Como disse, foi a pior notícia que recebi na minha vida. Não tínhamos a combinação dos anti-retrovirais, não tínhamos atendimento por parte dos convênios médicos e seguros-saúde, não tínhamos muito o que fazer, a não ser torcer e rezar para a doença não se manifestar. Assim foi até dezembro de 1993. O Sérgio era uma figura especialíssima. Muito disciplinado, quando soube que havia se infectado, passou a se cuidar muito: natação, ciclismo, alimentação natural. Em dezembro de 93 tivemos a primeira, das quatro internações que amargamos ao longo de todo o ano de 94. Precisávamos saber como ele estava de fato, qual o tipo de vírus que ele tinha. Há cinco anos ele era meu dependente no convênio médico. Nunca tínhamos precisado usar o convênio, porque, como eu disse anteriormente, disciplinado, metódico, meu irmão se cuidou até que precisamos recorrer à internação. Hospital Nove de Julho, São Paulo, primeira quinzena de dezembro de 1993. Nós dois no quarto. O Sérgio debilitado, deprimido. Eu, triste, a seu lado. Ali, deixando o tempo passar e falando sobre amenidades. Batem à porta. Entra uma mulher de meia idade, dizendo-se representante do convênio, com um comunicado por escrito. "Desculpe, eu vim informá-los que vocês não poderão ficar neste hospital porque o convênio médico não atende este tipo de doença". Eu não acreditei na falta de sensibilidade, de tato, daquele ser humano. Ela poderia ter me chamado lá fora e dado o comunicado. Não. Era rotina para eles aquela atitude. Nos entreolhamos. Meu irmão baqueou ainda mais. Eu imediatamente desci, fiz um cheque caução, liguei para a advogada que conhecia e iniciamos naquele momento uma discussão jurídica com a Golden Cross. Não era justo. Ele era meu dependente há cinco anos e nunca havíamos usado o convênio. Vinte e quatro horas depois a Justiça de São Paulo nos concedeu uma liminar que garantiu o atendimento médico até que ganhamos a causa em meados de outubro de 94. Para isso acontecer foi traçado um longo, complexo, doloroso, marcante e inesquecível caminho. Meu irmão se expôs. Deu entrevistas. Falou sobre como se sentiu quando percebeu o preconceito e a rejeição do convênio. Articulei manifestações. Mobilizei jornalistas em redações. Os "coleguinhas" (termo que nós jornalistas usamos para nos denominarmos) se solidarizaram. Viramos notícia. Geramos muitas notícias e a discussão sobre a questão veio à tona. Ganhamos em primeira instância. Neste momento eu entrei no quarto que meu irmão ocupava na casa de meus pais na Zona Norte de São Paulo. O Sérgio pesava uns 38 quilos. Não enxergava mais. Movimentava-se com dificuldade. Tinha poucos momentos de lucidez. "Oi brother, tenho uma ótima notícia: você ganhou, nós vencemos o convênio em primeira instância. Viva bastante para que a Golden Cross perceba que precisa mudar. Estou muito feliz. Parabéns". Ele se virou para o lado onde eu estava e disse apenas. "Legal, e os outros?" Dois meses depois, em novembro de 94, meu irmão morreu. A decisão da Justiça a nosso favor só aconteceu porque houve a disposição dele em se expor, o apoio dos jornalistas que se sensibilizaram com a causa e trouxeram a discussão para a sociedade civil, e ainda o fato dele ter comparecido a primeira audiência e ter passado mal na frente do Juiz que, constrangidíssimo, cedeu um sofá para que ele se deitasse.

MS: O que você fez a partir de então?
Roseli: Quando a pessoa morre, fica com um vazio imenso. O meu, tenho tentado preencher com ações voltadas para a inclusão e cidadania contra o preconceito e a discriminação. No início fundei a Associação Parceiros da Vida e, junto com o Sesc, realizamos uma série de ações pelo interior de São Paulo com oficinas de sexo-seguro, inserções culturais, quando era passado um abaixo-assinado contra a posição dos convênios-médicos e seguros-saúde. Colhemos mais de 20 mil assinaturas e as enviamos ao Ministério da Justiça. Atualmente eles atendem as pessoas que vivem com hiv e Aids. Estipularam uma carência de dois anos, mas com o fato de termos criado jurisprudência, é muito mais fácil de um portador ter na Justiça seu atendimento garantido.

MS: O que é a Agência de Notícias da Aids?
Roseli: É uma Agência de Notícias que desenvolve pautas específicas sobre o tema Aids. Houve um processo até chegar a Agência. Passei a ser organizadora e curadora de vários encontros sobre Comunicação e Aids. Percebi a necessidade de existir uma dinâmica mais produtiva entre os jornalistas e a pauta Aids. Com o apoio da Usaid / DKT Brasil fundei, em maio de 2003, a Agência de Notícias da Aids, que abastece todo dia as redações do Brasil inteiro com sugestões de pautas e localização de fontes para contribuir e trazer a pauta Aids novamente para o cotidiano das redações. É um projeto que começa pequeno, mas ambiciona outros mercados onde a informação poderá colaborar muito nos trabalhos de prevenção. Quero realizar ação semelhante, quem sabe, ano que vem, no continente africano. Primeiro vamos solidificar as ações por aqui. Como o hiv não tem preconceito e nem fronteiras, não tenho preguiça para desenvolver projetos e possibilidades de construção de ações solidárias e cidadãs que auxiliem a combater a ignorância do preconceito e da desinformação que são os aliados básicos do alastramento da epidemia no mundo.

MS: A Agência de Notícias da Aids foi fundada há três meses não é isso?
Roseli: Temos exatos quatro meses de funcionamento. Atualmente, encaminhamos pautas para 700 pessoas, entre jornalistas, especialistas, ativistas e comunidade científica. São enviadas duas pautas por dia para os jornalistas de todo o Brasil. Já encaminhamos aproximadamente 233 pautas como sugestão de reportagens para as redações. Temos tido um retorno bastante significativo. Muitos jornais, revistas e redações de TV têm nos usado como fonte quando precisam de alguma informação sobre o hiv/aids. Estamos alcançando nosso objetivo que é, gradativamente, trazer o assunto de volta para as redações.

MS: Você culpa alguém pela disseminação da epidemia?
Roseli: São vários fatores. Demorou-se muito tempo para comunicar corretamente. No início, alguns jornais estampavam a manchete "Peste Gay" ou mesmo "Câncer Gay". Depois veio aquela conversa de que era uma doença que só atingia um "grupo de risco", ou seja, as pessoas promíscuas e que usam drogas injetáveis que eram alvo do hiv. Conversa fiada. Se tivéssemos, desde o início, dito que todas as pessoas que tem "comportamento de risco" podiam contrair o vírus, teríamos contribuído mais para segurar a proliferação de casos. O hiv chegou às crianças porque chegou às mulheres. Foi se alastrando silenciosamente. O preconceito, a desinformação, a intolerância são aliados eficazes deste vírus.

MS: Como você vê e o que acha que pode fazer com a Agência de Notícias da Aids com relação à transmissão vertical, aquela que transmite o vírus dos pais para os filhos?
Roseli: O que temos feito: sugerimos reportagens, indicamos fontes, estimulamos a imprensa, que fala para a mulher, a publicar mais pautas sobre a questão.

MS: Qual é a sua religião?
Roseli: Eu sou kardecista convicta desde os 17 anos. Faço evangelho, tomo passes e acredito em reencarnação. Já trabalhei mediunicamente em centros. Atualmente, só compareço a sessões para tomar passes. Quando sou convidada, dou palestras e falo sobre o espiritismo que me ajuda muito a compreender e aceitar esta sociedade enlouquecida que vivemos.

MS: O que é a Aids hoje para você?
Roseli: Uma doença que veio para mudar o mundo, infelizmente, através ainda de muito, muito sofrimento. Do fundo do meu coração eu não gostaria que as pessoas tivessem que passar pela experiência que eu passei. O que eu puder contribuir para que menos pessoas contraíam o hiv, vou fazer. E me sinto muito feliz de poder usar meu ofício para isso.

MS: Você se considera uma mulher de sucesso? O que mais espera conseguir na sua luta contra a Aids?
Roseli: Olha, eu me considero uma pessoa que vai atrás de seu sonho e que tenta construir a vida dentro dos conceitos que acredita. O conceito de sucesso é bastante relativo. Sucesso é ser feliz? Sucesso é estar contente com o que está fazendo neste exato momento? Estou felicíssima com o fato do projeto da Agência de Notícias da Aids ter deslanchado antes do que a gente havia planejado. Estou contentíssima com os resultados que temos alcançado! Eu tenho claro que a cara da Aids hoje é a África e os 30 milhões de doentes que sofrem por lá com a doença. Vou para lá tentar contribuir para que as pessoas infectadas sofram menos, para que menos pessoas contraiam o vírus e para responder a pergunta que meu irmão fez e que guardo no coração: "Legal, e os outros?" Todos os dias, nós aqui da Agência nos preocupamos com todos "os outros", porque temos compromisso, porque temos como meta a solidariedade que está sendo construída em nosso cotidiano e, porque queremos ajudar a construir uma sociedade mais amiga, mais saudável, mais cidadã, onde caibam todas as pessoas, de todos os credos, de todas as formas de vida, onde a tolerância e a humanização sejam os alicerces de um novo mundo.

 
 Entrevista 
Nessa edição, Mulheres de Sucesso entrevista Bob Wollheim.

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