Quando elaborava roteiros de viagem para amigos, há 20 anos, Lucila Nedelciu - diretora-proprietária da Agência de Turismo Raidho - não imaginava que teria uma atuação profissional no setor. Porém, a habilidade com os roteiros unida à curiosidade e gosto por viagens foram os primeiros traços a desenhar uma nova trajetória profissional em sua vida. A então secretária de uma multinacional, que não tinha qualquer formação na área do Turismo, começou a estudar por conta própria sobre o ramo por meio de livros especializados. A leitura, aliás, foi uma grande aliada em todo o percurso de Lucila.
Foi por meio dela que intensificou sua ligação com a cultura da Índia, hoje um dos destinos mais cotados em sua empresa, ao ler o livro "Autobiografia de um Yogi". Com duas décadas de atuação na bagagem, a Raidho é especializada em destinos exóticos e mantém-se próspera graças ao espírito empreendedor de Lucila. Embarque com a gente na conversa que segue para conhecer algumas qualidades que fizeram diferença na vida desta executiva, além de dicas para alçar voos mais altos em sua própria trajetória profissional. Boa viagem!
Sua história tem uma forte ligação com a Índia, tanto que a Raidho seguiu o curso dos destinos exóticos. Conte-nos um pouco como se deu a trajetória para a abertura de seu negócio.
Desde pequena, embora fosse de uma família simples, o meu sonho era viajar. Estava trabalhando como secretária na BASF e vi a oportunidade de iniciar um negócio próprio, alugando imóveis para temporada. Para atender a demanda, um ano depois, em 1990, abri também uma agência de viagens, oferecendo viagens nacionais e rodoviárias. Em pouco tempo, após ler um livro de um mestre da Índia – Yogananda (autobiografia de um Yogue), decidi que eu queria enviar pessoas para lá. Fui me especializando no destino e tudo foi fluindo, e o meu leque de opções de destinos foi aumentando, sempre em função da demanda dos clientes. Após 21 anos a Raidho opera o mundo inteiro.
Quais as dificuldades que enfrentou e como encarou (e encara) os obstáculos que apareceram em seu caminho?
As dificuldades foram imensas. Primeiro porque eu não era da área de Turismo. Tive que fazer muitos cursos, inclusive o de emissão de bilhetes manual na época. Não tinha Internet, o que veio somente após alguns anos. A comunicação com o exterior era via fax, e tinha o problema do fuso horário, com a Índia de 8h30. Saia à noite e finais de semana para entregar vouchers e toda documentação de viagem, mesmo em lugares que não conhecia. Os acordos foram vindo mediante os anos de muito trabalho, mostrando segurança e confiança aos parceiros.
Sofreu preconceito por ser uma mulher em um posto executivo? Como vê esse aspecto do mercado de trabalho?
O fato de ser mulher casada e mãe , sempre exigiu muito, em dar conta de tudo, da casa, dos filhos e do trabalho. Quantas vezes pensei em desistir. Mas tive o apoio da minha família. E nunca sofri preconceito por ser uma mulher executiva aqui no Brasil, apenas no exterior, com a Tunísia, e alguns outros destinos, até por ser brasileira. Mas isso acontecia muito mais por uma questão cultural desses países, do que propriamente do mundo de negócios.
Quais as características que uma mulher deve cultivar para ser empreendedora?
Ser corajosa, acreditar no seu sonho, ser guerreira, e sempre otimista. Nunca ser pessimista, mas sim realista. Ter flexibilidade e ser aberta às novidades também podem ser qualidades muito úteis. Qualquer início é difícil. Não tenha preconceitos. Você, antes do que ninguém, precisa participar de todos os processos, para ter conhecimento de cada ação do seu negócio. Às vezes, exige tarefas que julgávamos nunca ter de fazer. A geração atual tem pressa. Há o lado positivo e o negativo disso. O negativo é que se o resultado não vem rapidamente, eles desistem mais fácil. Por isso destaco a persistência e o propósito também como qualidades fundamentais.
Pode passar algumas dicas para quem está querendo abrir seu próprio negócio?
Usar o feeling e o "sexto sentido", além de sempre pensar em estratégias a curto prazo, médio e longo prazo. Ter garra de vencer, nunca desanimar. Pensar primeiramente na qualidade do serviço, depois no retorno financeiro. Pois, a medida que você oferece o melhor para o seu cliente, ele volta e traz muitos outros clientes. No inicio, o retorno financeiro pode demorar um pouco. No meu caso, tudo que sobrava no final do mês, eu investia em mais computadores, mais mesas, mais pessoas.
Quais são as pessoas ou líderes ou frases que lhe inspiram? Por quê?
Primeiramente, o que mais me inspirou no início de carreira foi o livro do Yogananda, pois me passou segurança, e me fez acreditar que tudo é possível. Basta você querer e acreditar que o universo conspira a seu favor. Hoje, o meu ídolo é o Ratan Tata, um empresário de muito sucesso na Índia, dono das marcas Tata, Hotéis Taj, carro Nano e o Jaguar, além de empresas no seguimento de couro, telecomunicações, etc. O que mais me inspira nele é que, mesmo sendo um bilionário, ele é simples e muito educado e atencioso com todos.
É possível perceber que a leitura foi uma grande aliada para o seu caminho empresarial. Quer deixar alguma referência como indicação?
Um livro de inspiração que eu destacaria é "Autobiografia de um Yogi" por Paramahansa Yogananda. Sugiro também o livro "Previsivelmente Irracional", autoria de Dan Ariely. O livro ajuda a repensar a fundo a forma como você e as pessoas em sua volta agem. Por meio de uma série, Dan Ariely demonstra que a nossa capacidade de raciocínio tem defeitos provocados por forças invisíveis - emoções, relatividade, expectativas, apego, normas sociais - que nos induzem a fazer escolhas 'Previsivelmente Irracionais'. Para cada momento da vida, acho que sempre surge um livro que transforma a gente, criará novas visões, proporcionando novas etapas. Comigo acontece assim. Ficar mais atento a estes sinais vão direcionar a intuição inclusive para o que ler.
Julga o Turismo um bom mercado para as mulheres? Por quê?
Sim, é um bom mercado, pois requer contato com pessoas, paciência, e muito conhecimento cultural de história e geografia, áreas geralmente apreciadas pelas mulheres. Apesar das oscilações do mercado por conta das novas tecnologias, é um trabalho muito compensador.
Quais as expectativas e os desafios que vê em relação ao seu futuro?
O maior desafio é justamente o da tecnologia, de concorrer com a Internet. Por isso, oferecemos serviços diferenciados, como a elaboração de consultoria em viagens.
O que é o sucesso para você? Você se considera uma mulher de sucesso?
Acredito que o sucesso é estar preparada para aproveitar o momento certo, não tendo medo de crescer e de enfrentar desafios. Por este prisma, me considero uma mulher de sucesso. Não me arrependo de nada em minha trajetória de vida e confio que consegui aproveitar as oportunidades por esse reconhecimento da importância de estar preparada para elas.
Por Clarissa Rodrigues
Redação Mulheres de Sucesso
