Mara Gabrilli

Mara Gabrilli tem 42 anos, é publicitária, psicóloga, colunista de revista, empreendedora social, radialista, ex-secretária municipal e vereadora na Câmara de São Paulo.

“A vida me impôs muitos desafios. Aos 26 anos fiquei tetraplégica por causa de um acidente que quase me custou à vida. Passei cinco meses internada, dois em um respirador artificial, e recebi uma nova condição: a impossibilidade de me mexer do pescoço para baixo. Quando os médicos me disseram que eu tinha 1% de chance de voltar a me movimentar, eu respondi: “Um não é zero. Tenho muito a fazer! Foi aí que iniciei meus projetos. Fundei em 1997 a ONG Projeto Próximo Passo (PPP) para promover pesquisas para cura de paralisias e atletas com deficiência” – conta Mara Gabrilli.

Por Renata Dias



1) Mulheres de Sucesso: Conte-nos um pouquinho da sua infância, família...
Mara Cristina Gabrilli: Tive uma infância muito legal, desde pequena era grudada no meu irmão, brincávamos muito juntos, embora também brigássemos. Lembro-me muito do meu pai, quando era criança e morávamos em Santos, mais precisamente na Ilha Porchat. Uma cena marcou: nós estávamos sentados à mesa do café da manhã e lá no fundo víamos o horizonte e o mar. Adorávamos atividades desafiantes como andar de patins. Meu pai sempre foi um companheirão. Quando eu tinha uns quatro anos ganhei uma lambretinha e andava com ela dentro do apartamento. Mais tarde nós três andávamos de moto dentro de casa. Imagina? Uma aventura! Tínhamos um instinto de conquistar territórios. Minha mãe sempre criava acontecimentos, passeios para nos divertir... Uma pessoa fundamental na minha vida foi a Norminha, nossa babá, desde que eu tinha um ano de idade. Lembro-me bastante da nossa convivência. Ela morreu no ano retrasado.

2)MS: Como foi o acidente que te deixou tetraplégica? Quem estava com você?
Mara: Eu estava no carro com meu ex-namorado Paulo e meu amigo Henrique, quando o veículo caiu na serra de Taubaté. Nós estávamos voltando de um final de semana em Paraty, Rio de Janeiro, quando Paulo perdeu o controle do carro em uma curva, capotou inúmeras vezes barranco abaixo antes de parar. Num primeiro momento após o acidente senti que estava em uma viagem num lugar muito escuro e eu assistindo o meu corpo totalmente iluminado e indo longe. E não era ruim. Silêncio! Maior que o fundo do mar. De repente, mudou o caminho, ou eu já estava voltando, comecei a ouvir meu nome em gritos desesperados do meu amigo Henrique. Foi aí que o cenário mudou em apenas uma fração de segundo. Quando abri as pálpebras vi os olhos azuis enormes e desesperados de Henrique achando que eu tinha morrido, juntando a felicidade por eu estar viva. Foi aí que percebi que não conseguia sair do carro e não estava presa.

3) MS: Qual foi a reação da sua família após o diagnóstico?
Mara: A minha família ficou muito próxima! Só a minha irmã que sumiu, pois não soube lidar nem aceitar a situação. O meu irmão foi meu maior companheiro e me ajudou muito a desenvolver atividades. Já com a minha mãe tive um relacionamento intenso, difícil! Vim para esta vida para aprender a lidar com ela. O meu pai ficou extremamente sensibilizado. Já a Norminha disse que na noite do acidente pressentiu. Além disso, a cadela não parava de latir e não tinha nada na casa.

4)MS: Você gravou um depoimento para a novela Viver a Vida da Rede Globo? Acha que a recuperação da Luciana está sendo rápida?
Mara: Fui procurada pela produção da trama de Manoel Carlos meses antes da novela Viver a Vida entrar no ar. Eles me ligaram para contar que teria uma personagem tetraplégica. Pouco depois, me procuraram de novo para fazer uma entrevista e gravar o depoimento. Minha história foi ao ar em rede nacional no capítulo do dia 25 de dezembro. Eles me deram esse presente de Natal. Quanto ao avanço de Luciana não acho que seja rápido, está proporcional. As pessoas podem não acreditar, mas a novela está fiel à realidade. Com a fisioterapia e a diminuição do edema, é natural que os movimentos comecem a voltar.

5)MS: Como foi posar nua para revista Trip, em 2000? Teve muita repercussão?
Mara: Deu muita repercussão. A revista foi o recorde de cartas da revista. Fui a primeira tetraplégica a posar nua. Foi novidade pra mim e para o fotógrafo. Durante o ensaio às vezes eu dava ideias de posições e situações! Porém a foto da capa foi ele que deu a dica (risos). São muitos detalhes. Tanto as mulheres com deficiência como as sem deficiência curtiram o ensaio. As mulheres com deficiência falavam que os homens começaram a olhar para elas com outros olhos. E as mulheres sem deficiência, por sua vez, falavam: se ela, que não mexe um músculo do pescoço pra baixo consegue malhar e ficar com o corpo assim, eu também posso.

5)MS: Como foi a experiência de ser vereadora? Como você foi recebida na Câmara?
Mara: Fui recebida muito bem. No decorrer do tempo, as pessoas foram melhorando, aprendendo a conviver, quebrando o gelo. Tem uns ali que nunca vou conviver muito, pois eles têm perfis e conduta totalmente diferentes. Mas uma coisa é certa: a maioria nunca teve muita convivência com uma cadeirante.

7)MS: Você se considera uma mulher de sucesso?
Mara: Sim, eu me considero uma mulher de sucesso. Simplesmente sou focada em fazer as coisas com amor. Amor e disciplina! Não podia dar em outra!





 


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